O envelhecer... dos nossos...

Por Maria - novembro 18, 2019

envelhecer dos nossos - tropa do batom

Todos sabemos,  apesar de não o mencionarmos,  nem nos lembrarmos diariamente,  que a nossa presença neste mundo/universo é passageira.

Todos sabemos que um dia teremos todos o mesmo final, e,  penso que,  na generalidade,  não deixamos esse peso interferir no nosso dia a dia.

Mas se,  ao invés de associarmos esta constatação a nós próprios começarmos,  ou pior,  formos forçados a transpor aos nossos entes queridos..

A muitos de nós nunca nos passa pela cabeça até essa realidade cair como bomba nas nossas vidas...
Acho que nunca estamos preparados para tal...  Os indícios estão lá,  mas nós nunca os vemos..   O nosso interior recusa-se a reconhecer as fragilidades dos nossos progenitores,  sejam elas físicas,  sejam elas do foro psicológico.  Aos nossos olhos aquela mulher vai ser sempre aquela matriarca que comanda a família com uma energia e força incomparáveis em simultâneo  com um olhar doce carregado de amor e ternura...  Aos nossos olhos aquele homem será sempre aquele pilar inabalável que não se desmorona nunca...  Aos nossos olhos serão sempre eles que nos vão orientar e apoiar quando estamos perdidos e sem forças...

Mas quando são eles a cair?  Quando são eles que precisam dessa força,  quando são eles que precisam desse amor e dessa ternura?

Qual é a nossa percepção em relação a isso? Qual é a nossa atitude?

Não é fácil!  De repente (não assim tão de repente) passamos de protegidos a protetores e isso assusta...  Assusta a falta de apoio a nível governamental (é melhor nem entrar por ai),  a nível familiar,  a nível financeiro,  entre outros...  Mas,  na minha opinião,  o que realmente assusta é o receio de não estar à altura... Como eles estiveram...

Penso que essa dúvida,  a de não estar à altura,  é totalmente inerente ao amor...  Quem ama preocupa-se!  E decerto que também eles tiveram esse receio,  e que em muitos caminhos se depararam com imensas dúvidas e inseguranças,  mas nem assim abandonaram o barco...  E quantas vezes se devem de ter questionado e até massacrado que a decisão que tomaram poderia não ser a mais correcta... Mas,  nós sabemos que,  no final das contas, eles estiveram à altura...

A culpa,  por vezes também teima em nos acompanhar...  Poderia ter feito de outra forma,  talvez outra opção seria mais benéfica...

Quando observo alguns idosos que estão entregues a essas circunstâncias e imagino o que vai nos seus pensamentos,  e  tento até ler as suas almas através dos seus olhos...  Não querendo ser generalista,  ou tendenciosa, devido ao receio que tenho em mim nesta altura da vida,  mas sinto um olhar vazio e desprovido de emoções...  Tento adivinhar como eram em jovens...  Boas pessoas,  pessoas menos boas., o quanto trabalharam,  o quanto deram aos seus.... Mas no fim todos estão iguais: frágeis, vazios,  tristes,  entregues e à espera do que sempre recearam... Sei que nem todo o envelhecer é igual,  falo aqui apenas de quem não tem autonomia para estar entregue a si e está entregue a terceiros.

Como será comigo?  Sou apologista e espero que se não tiver condições de estar só que me seja possível esta alternativa.

Estarei  a  ser demasiado derrotista e crua?  Ou será de alguma forma a culpa a dar conta de mim?

Não,  não é fácil..   Não é fácil!  Não é fácil deixar essa pessoa que me deu tanto,  que dedicou tanto da sua vida a mim com desconhecidos...  Não é fácil confiar nesses desconhecidos...  Não é fácil perguntar se está tudo bem,  quando sabemos que ela não está em pleno...  Não é fácil dar um beijo de até para a semana sem ter a certeza de que vai acontecer...  Não é fácil não nos sentirmos culpados quando saímos e ouvimos a porta a fechar..   Não é fácil não sentir culpa quando vamos de férias e ela não vai..   Não é fácil pensarmos que gostaríamos de lhe dizer o quanto a amamos mas que ia soar a despedida... E acabamos por não dizer.

Não é fácil...  Nem para nós,  nem,  principalmente,  para eles...

Mas espero que quando chegar a minha vez estas dúvidas surjam por parte de quem me acompanha.. Pois é sinal de amor...

Amem hoje..   Digam hoje... Cuidem hoje...
Como se não houvesse amanhã...

Maria

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2 comentários

  1. Querida Maria... achp que os teus medos são muito reais em todos nós. Na maioria. Afinal a sociedade não muda, não cede, não afrouxa para que tu possas cuidar os teus. Continuas a ter de ser mãe, amiga, esposa, profissional, mulher... e os lares são cada vez mais impessoais, caros, ou dão-nos pesadelos cada vez que vemos uma das mil reportagens na tv sobre negligencia. Mas o que fazer? A resposta deveria ser social mas não o é nem será... e isto digo-to como Assistente Social. Enfim... é uma incognita assustadora. Força!

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  2. Obrigada.. Espero que a idade, ou melhor, o estatuto da idade seja como tantas outras coisas da vida, cíclico... Ou seja, como fazíamos antigamente, onde a decisão do mais velho prevalecia e era respeitada. Acho que actualmente existe um desrespeito constante e conveniente de muitos: governo, sociedade...
    Onde às vezes também me incluo, por estranho que pareça... ��

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